“Travessia Vol.1”: Nara Couto entre raízes e encontros

by Renata Luiz
Há discos que parecem nascer de uma pesquisa musical. Outros carregam a sensação de terem surgido de um encontro. Travessia Vol.1, de Nara Couto, pertence a esse segundo lugar. É um trabalho íntimo, espiritual e ousado, no qual a conexão entre a Bahia e a África lusófona deixa de ser apenas referência e se transforma em presença.
A cantora baiana constrói uma ponte entre territórios que compartilham histórias, afetos e uma memória que continua viva na música. Talvez por isso o disco tenha uma profundidade tão particular. Há algo nele que parece ir além das próprias canções.
Nara traduz essa sensação de uma maneira bonita: “Fiz a travessia para lugares que quando cheguei eu já existia, porque têm lugares que a gente não conhece, a gente reconhece.”
É justamente esse reconhecimento que atravessa a escuta.
Travessia Vol.1 não procura simplesmente colocar sonoridades brasileiras e africanas lado a lado. Há troca e criação conjunta. Artistas como Mû Mbana, da Guiné-Bissau, Kady e Zidi Andrade, de Cabo Verde, e o brasileiro Tiganá Santana fazem parte desse encontro.
E isso muda a maneira como o disco soa. Tudo parece muito próximo, vivo e natural.
“Laço Ancestral” já entrega um pouco dessa sensação. A música tem uma força que não precisa de excessos para chegar. As vozes de Nara e Mû Mbana se encontram de um jeito bonito, enquanto a sonoridade cria uma atmosfera quase hipnótica. É uma daquelas músicas que fazem a gente diminuir o ritmo e simplesmente ouvir.
Essa sensação permanece ao longo do álbum.
A música de Nara parece chegar mais profunda aqui. Existe uma dimensão espiritual nas canções, mas também muita humanidade. A ancestralidade não aparece como algo distante ou preso ao passado. Ela está viva, atravessa gerações e continua encontrando novas maneiras de existir.
Também é um disco difícil de colocar dentro de uma única sonoridade. As referências se encontram de maneira tão natural que, em alguns momentos, tentar identificar onde termina a Bahia e onde começa a África perde completamente o sentido. É justamente nesse encontro que Travessia encontra sua força.
Nara já vinha construindo uma trajetória marcada por essa conexão com o continente africano, mas aqui parece existir uma entrega ainda maior. A voz ganha espaço, os instrumentos respiram e as músicas não têm pressa.
Talvez seja isso que mais tenha me chamado atenção durante a escuta: há algo aqui que não encontramos com frequência. Um trabalho profundo, cheio de identidade e que soa verdadeiro do começo ao fim.
Quando Nara diz que “não é apenas atravessar o mar, é permitir que o encontro transforme o caminho”, fica mais fácil entender o sentimento que acompanha o álbum.
Travessia Vol.1 é uma ponte entre Bahia e África, memória e presente, ancestralidade e criação. Uma travessia que não procura simplesmente voltar às raízes, mas descobrir tudo o que ainda pode nascer delas.
OUÇA:
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