Você sabe o que é uma partitura corporal?

Você sabe o que é uma partitura corporal?

A primeira vez que ouvi a Sarahysha, tive uma sensação mântrica. Senti que não estava ouvindo a música em si, mas participando de uma experiência. Então, conversando com ela – um papo que foi de estratégia musical a Gilgamesh – eu tive a certeza de que transcendia a música em si. É um som segmentado, não se assemelha a canções de rádio. Ele é feito para viver um momento e não para tocar em massa. É algo mais pessoal, mais individual, para se fazer em contato com a própria alma. 

E aí ela me contou que é uma música física, mesmo. Antes de virar melodia, suas faixas podem ser um aperto no peito, uma batucada nas pernas, uma dança.

Podem começar em uma respiração diferente, em um movimento que se repete sem explicação ou em uma sensação que ainda não encontrou palavras. Às vezes, o corpo parece entender a música antes mesmo de os ouvidos conseguirem escutá-la.

É nesse território que Sarahysha cria. Cantora, compositora, performer e pesquisadora brasileira radicada no Benin, ela trabalha com o conceito de partitura corporal: uma forma de composição em que o corpo não aparece apenas como instrumento de interpretação, mas participa ativamente da escrita da música.

Em Spiritual Biatch! – Corpo, Memória e Resiliência, Sarahysha transforma respiração, gesto, voz, improvisação e sensações físicas em matéria sonora. O projeto transita pelo afro-jazz, pelo spiritual jazz, pela psicodelia africana diaspórica e por ritmos conectados às culturas afro-brasileiras e da África Ocidental. Mas talvez seja melhor não tentar colocar tudo dentro de um gênero. A música de Sarahysha parece existir justamente no espaço em que os nomes já não são suficientes.

Afinal, o que é uma partitura corporal?

Quando pensamos em partitura, imaginamos notas, pausas, compassos e outros sinais registrados sobre o papel. A partitura organiza a execução e permite que uma composição seja lida e interpretada por diferentes músicos. Na pesquisa de Sarahysha, essa escrita começa antes.

Uma mudança na respiração pode anunciar uma pausa. Um movimento repetido pode estabelecer o pulso. Uma tensão física pode se transformar em timbre. Um gesto pode conduzir a voz, provocar uma resposta dos instrumentos ou alterar o caminho de uma improvisação.

A partitura corporal nasce da escuta desses sinais. “Minha música não nasce de uma forma predefinida. Eu escuto os sons por dentro e depois vou esculpindo as ondas sonoras”, explica a artista.

Sarahysha chama esse processo de música manifesta. Primeiro, a música literalmente se manifesta como sensação, imagem, movimento ou energia. Depois, começa a adquirir uma forma sonora. Não significa abandonar completamente a estrutura musical. Significa reconhecer que a estrutura também pode surgir daquilo que acontece no corpo. “É uma música que religa o corpo a algo que está além do visível”, conclui.

A experiência no Benin

Nascida em São Paulo, Sarahysha começou a cantar ainda na infância, em corais de igreja. Mais tarde, circulou por espaços independentes e pela cena underground de jazz da capital paulista. Sua trajetória também passou pelo Caribe, pela França e pela Ilha da Reunião, território francês no Oceano Índico. Atualmente, a artista vive no Benin, na África Ocidental.

A convivência com músicos beninenses e o contato com ritmos, danças, práticas culturais e formas de transmissão baseadas na oralidade modificaram sua maneira de criar. “No Benin, entendi com mais força que a música também pode ser escrita na pele, na memória e no movimento. A transmissão não está apenas no papel. Ela está no corpo”, explica.

Essa experiência não é usada para tentar reproduzir uma tradição ou transformar o Benin em cenário exótico. Ela influencia o modo como Sarahysha constrói sua própria linguagem, conectando referências brasileiras, africanas e diaspóricas em uma obra contemporânea.

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Carol Tavares é jornalista. Passou pela MTV, pela Bandeirantes e a hiperatividade levou seu caminho a cruzar felizmente com o Jardim Elétrico e criar a produtora Jazz House. Apaixonada por música, pelo amor, por Alberto Caeiro e por seu acampamento no Jalapão.