Exclusivo: Marilia Schanuel e Frederico Demarca

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A intérprete e cantora Marilia Schanuel se uniu ao compositor Frederico Demarca para juntos lançarem um disco emblemático e de rara beleza e força. No disco há também um terceiro elemento, Marcelo Fedrá, que foi praticamente o responsável por essa união, além de assinar a produção e direção artística do CD.
O trabalho chama-se “Santa Rita” e é uma espécie de homenagem a Demarca, cultuado compositor da cena musical carioca, que nasceu no dia 22 de Maio, dia de Santa Rita, de quem o pai é devoto. Digo “espécie” porque é difícil dizer claramente, já que o fenômeno da reversibilidade, desenvolvida pelo filósofo francês Merleau-Ponty, está presente em todo disco, de modo que homenageado e admirador confundem-se o tempo todo.
Tudo em “Santa Rita” é espanto. Se Tereza Salgueiro é o arquétipo do espírito português, como afirmou seu antigo parceiro de grupo Pedro Ayres, Marilia Schanuel, juntamente com Leopoldina – outra grande cantora, compositora e intérprete –, representa o arquétipo da mulher de nossa terra; da vida e potência da voz feminina. Enquanto a primeira é terna, carinhosa como afago de mãe, a segunda traz uma força quase violenta, visceral e ao mesmo tempo encantadora. É nesse disco que Marilia cresce, torna-se gigante, expondo um lado pouco explorado no Mundo Grande.
O improviso é também um signo dominante. Para a gravação do disco, todos os músicos tinham praticamente as mesmas partituras e, a partir dos andamentos indicados por Marcelo Fedrá, eles criavam frases e assim iam encorpando cada música. Para assumir esse risco foram convidados Victor Ribeiro (violão), Francisco Pellegrini (piano e acordeão), Sérgio Castanheira (baixo e trombone) e Lourenço Vasconcelos (bateria) – músicos competentes e de confiança de Fedrá, responsáveis por momentos brilhantes no trabalho que variam entre a polidez e a crueza. Dá pra sentir o peso desse processo em músicas como “Santa Rita” (introdução que funciona como diapasão do álbum), e “A Vingança de Cunhã”, que está fadada a se tornar um standard da música brasileira por conta de sua força poética avassaladora.
Todas as músicas do disco são de Frederico Demarca e quatro das oito letras (Nós Cegos, Seu, Lembranças e Ser Tal) também são suas. As outras quatro são: Santa Rita e Flor (Marcelo Fedrá); A Vingança de Cunhã (Thiago Thiago de Melo) e Perto de Mim (Renato Frazão).
Santa Rita: paradigmas e potências
Vivemos em tempos confusos, inseguros, onde muitas vezes tenta-se vender incompetência como “arte contemporânea”. Tempos preguiçosos, eu diria. Onde negar é sempre o caminho mais fácil.
Às vezes negar é preciso, mas é também preciso conhecer o que se está negando, caso contrário, a negação vira chilique de criança birrenta.
“Santa Rita” tem tudo o que é preciso para lembrar que é papo furado essa história de que a música brasileira tem que ter distorção, pedais e letras nonsense para ser moderna; e que não há problema algum em ter e falar sobre as suas raízes: tudo isso sem soar saudosista ou quadrado. Ao contrário: ele é justamente um ir adiante sem esquecer daquilo que já foi feito anteriormente, sem fingir que tudo o que temos até aqui se deu por um simples Fiat Lux. O que às vezes me faz sentir que não estamos longe de um desejo de nova era, talvez o mesmo tipo de desejo que permeava o Renascimento.
Filippo Brunelleschi foi um arquiteto do século XV, responsável pela conclusão da catedral de Florença. Nessa época, segundo o célebre historiador da arte Ernst Gombrich, predominava o desejo de reviver o glorioso passado do império romano, o que inauguraria uma nova era. “Os florentinos desejavam que sua catedral fosse coroada por um imponente zimbório, mas nenhum artista era capaz de cobrir o imenso espaço entre os pilares em que o zimbório deveria assentar, até que Brunelleschi encontrou um método para executar essa obra.” Detalha o velho mestre em seu livro “A História da Arte”. Para chegar ao seu objetivo o arquiteto florentino uniu elementos da arquitetura clássica, que conheceu bem de perto em uma temporada em Roma, com novas formas de usar as técnicas desse período. Mais adiante Gombrich explica: “O que Brunelleschi tinha em mente era um novo processo de construção, em que as formas da arquitetura clássica fossem livremente usadas para criar novos modos de harmonia e beleza.”
O resultado da união entre Frederico Demarca e Marilia Schanuel é um disco que, pelos mesmos motivos que fizeram de Filippo Brunelleschi um mestre, já nasce como um dos fortes candidatos a zimbório da imponente construção da nossa canção atual.
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