Exclusivo: Deh Mussulini – Varanda Aberta

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Casa aberta, gente bamba, violões nervosos a rasgar a noite carregando em sua sela o canto de alguém madrugada adentro. São famosas as noitadas regadas a sambas e choros nas noites quentes em décadas passadas. Noites que tinham gente como Vinícius de Moraes como anfitrião. Hoje, quem abre a varanda, não de uma casa, mas de seu próprio ser, é uma cantora e compositora da cada vez mais brilhante Minas Gerais.
“Varanda Aberta” é o primeiro disco de Deh Mussulini, moça de voz potente que depois de passar por alguns projetos e grupos oferece ao mundo um espetáculo de lirismo e técnica, acompanhada apenas do ao mesmo tempo técnico e emocionalmente temperado violão de Lucas Telles. Se por um lado o formato parece um tanto saudosista em meio a tantas programações, ruídos e distorções que formam hoje o hype da música brasileira (nada contra, que fique claro), por outro o resultado mostra a coragem e competência de quem assumiu a responsabilidade de tal empreitada.
Com uma forte ligação com o feminismo, Deh Mussulini, é idealizadora, junto com Irene Bertachini, do coletivo A.N.A., que reúne compositoras e cantoras de Belo Horizonte. Ela aparece luminosa, armada de canto e bravura, peito aberto a revelar a nudez da canção, seu corpo, sua derme. Honrar a canção-mulher, repleta de fibra e de graça: é praticamente disso que trata o disco.
A voz da intérprete é na maior parte do tempo firme, intencionalmente forte, quase petulante em alguns momentos, destacando a intrepidez da condição feminina, prodigiosa em meio ao risco do mundo. Há também ternura, suavidade e muito gingado. Lucas Telles aparece impecável, com violão matreiro, cheio das artimanhas de encantamento. O timbre do instrumento é limpo, claro e cada nota ressoa completa graças ao esmero da produção fina, atenta e preocupada de Leandro César – outro medalhão da música nacional. Passeando pelo baião, valsa e afro-samba, Lucas faz desfilar sonoramente no palco do ouvido a história do violão popular brasileiro, de Garoto a Baden Powell.
Os três (Deh, Lucas e Leandro) fazem parte de uma geração de músicos mineiros altamente preocupados com a qualidade de suas produções, com a relevância estética e desenvolvimento de seus trabalhos. Além de possuírem sólida formação acadêmica, são engajados com a canção, com a história e com seu desenvolvimento. Sensíveis, mas sem nunca abrir mão do primor técnico. Do mesmo nível são os parceiros que dividem a autoria das composições do disco com Deh (ente eles estão suas parceiras de A.N.A. Michelle Andreazzi, Irene Bertachini, Luana Aires e Leonora Weissmann).
Músicas como “Varanda Aberta” “Memórias” e “Noite Veraz” certamente irão encantar quem gosta de suavidade, interpretação e técnica violinística. Já para aqueles que preferem energia e pujança, “Pé no Chão” e “Do Alto do Salto”, têm a medida certa.
Ouvir “Varanda Aberta” é participar, é estar presente na comunhão de duas pessoas musicalmente avassaladoras. É ouvir de perto o tempo assoviar suas mais belas melodias e ser transportado direto para um lugar que não se encontra em cartografia convencional.
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