Resenha: Nana

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Com açúcar, com afeto

Pra falar de Nana, eu vou antes falar de Chico. Sim, o Buarque. Qualquer brasileiro que conheça minimamente Chico Buarque, já ouviu alguém dizer, ou já repetiu a frase que, sem dúvida, é um dos maiores clichês da MPB: ‘Nenhum homem descreveu tão bem a alma feminina como Chico Buarque’. Aí vocês me perguntam: o que uma coisa tem a ver com a outra? O que Nana tem a ver com Chico Buarque? Tudo! E nada!

Quando parei pra ouvir ‘pequenas margaridas’, rapidamente fui lançada à lembrança do Chico, a princípio, ‘Com açúcar, com afeto’.  Este link pode parecer meio óbvio, porque a primeira impressão que se tem do disco é exatamente esta: Muito açúcar, muito afeto. Mas, a medida que as canções evoluíam, me envolviam sempre mais neste sentimento do ‘universo feminino’ ou ‘feminilidade’. E outros links entre a menina baiana e o cortejado compositor, foram se apresentando pra mim em efeito cascata.

Não pretendo eu criar novos clichês, nem gerar discussões filosóficas e semânticas, muito menos estabelecer paradigmas, mas, Nana faz sim um contraponto, no mínimo curioso com o Chico.

Enquanto o compositor discorre sobre mulheres, seus medos, aflições de forma concreta, dura, de maneira a se aproximar à vida real (causando, claro, muita empatia), a vida que se vive na pele, Nana expõe o mundo abstrato e subjetivo das mulheres. Enquanto Chico conta uma história, possivelmente vivida por uma mulher, Nana conta segredos, fragmentos de sentimentos e pensamentos que, por tamanha abstração e complexidade, morrem mudos dentro de nós.

Ao revelar estes segredos em forma de canções, um ouvido mais desatento, pode deduzir ingenuidade. Qual o quê! Desprenda-se por alguns segundos da doçura da voz e da fofura melódica, para dedicar-se as letras, e irá descobrir uma menina muito culta, inteligente, talentosa, cheia de referências. Sua sensibilidade e criatividade exuberantes revelam todo este conteúdo de forma poética e não linear.

Enquanto Chico se constrói coerente, métrico e concreto, Nana se revela artesanal, como argila no torno. Sua música não se enquadra em nenhuma equação plausível e a estética decididamente rompe com a métrica simples e comum.

Para dialogar com Nana, é preciso estar disposto a visitar e permanecer por algum tempo em seu mundo colorido e bucólico. Gostar da ‘Nouvelle Vague’ de Godard e Truffaut ou do ‘Teatro do Absurdo’, não é um pré-requisito, mas pode ajudar a tornar a viagem mais rica e divertida.

E você ainda está se perguntando: o que tem a ver esta moça com o Chico?

Pouca coisa provavelmente. Mas Nana poderia ser muito bem, a personagem de Chico, aquela que o lançou à saga de ‘desvendar o mundo feminino’. Nana poderia ser aquela mulher de ‘Com açúcar, com afeto’, que reclama com carinho do marido boêmio e no final ‘vai esquentar seu prato e da um beijo em seu retrato’.

Pequenas Margaridas

O disco é autoral, bastante personalista, com influência da bossa nova e música francesa do século passado. Mas é incrivelmente moderno e universalista! Uma das coisas que mais me impactaram no trabalho é a convergência que ele tem da persona com o macro. E tal convergência está para muito além da incursão de elementos eletrônicos na música. Nana está exposta no disco. Ouvi-lo é como conhecê-la pessoalmente. Mas ao mesmo tempo é ficar frente a frente com todas as pessoas, com toda a geração a qual pertence. Não consigo enxerga-lo (o disco) como intimista. Nana não nos convida a entrar em seu quarto pra nos contar histórias, ao contrário, ela se expõe, ela traz o quarto pra fora e o escancara no meio do mundo.

Talvez nesta disposição para o despojamento irrestrito, resida outro encantamento.

Nana compôs, cantou, tocou, arranjou (quase) sozinha todas as faixas. O que poderia se tornar algo perigosamente hermético, acabou por ser a ferramenta da despretensão.  A artista optou pelo livre fluxo do trabalho, desobrigando-o de arrumações e enquadramentos posteriores. Ela o fez desnuda e o deixou igualmente nu.

Ao permitir-se abrir para o mundo sem reservas, Nana mirou na lealdade à pureza de sua arte.

Acertou, mesmo sem querer, na direção que aponta o caminho da música, de toda uma (novíssima) geração.

De braços abertos, esperando Godot com açúcar, com afeto, Nana.

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