“Xangô Alapalá”, de Zeferina e Mateus Aleluia

“Xangô Alapalá”, de Zeferina e Mateus Aleluia

Uma canção que não se ouve, se atravessa.

Existem músicas que chegam como lembrança e outras como aviso, mas “Xangô Alapalá” chega como presença. Desde os primeiros versos, Zeferina e Mateus Aleluia constroem algo que não soa como uma simples colaboração, e sim como um encontro necessário, quase um ritual. A faixa tem essa energia de quem nasce com destino próprio, guiada por forças que antecedem qualquer estúdio ou arranjo.

Zeferina canta com um tipo de entrega que mistura urbano, espiritual e ferida curada, como quem já conversou com dores antigas até elas virarem caminho. A voz de Mateus Aleluia vem como memória acesa, quase uma entidade que narra o que viu e o que ainda vê. Os dois se reconhecem no canto. Há uma firmeza suave ali, uma troca natural entre gerações que entendem a música como território de verdade.

Musicalmente, a faixa caminha entre transe e contemplação. Os sopros, a percussão, as texturas eletrônicas criam uma atmosfera em que o sagrado não aparece como algo distante. Ele é respirável, cotidiano, íntimo. É uma música que parece tocar o chão com os pés antes de se elevar. Cada elemento soa como parte de um corpo maior, alinhado com a proposta de cantar o que não se explica.

A letra amplia esse sentimento. Não é apenas louvor. É narrativa, memória, justiça. O encontro com Xangô é apresentado como visão e como caminho. A pedreira, a cachoeira, o machado alado, tudo funciona como símbolo vivo de um orixá que vê, sente e corrige. Quando surgem os versos que falam do sangue derramado pela injustiça, o impacto é direto. Não é passado distante, é eco. A viagem final por Kioko, Agê, Daomé, Benin e Oyó costura temporalidades, lembrando que a ancestralidade não está atrás, mas ao lado.

E é impossível ouvir essa música apenas como registro técnico. Ela tem aquela força rara das canções que parecem existir antes de serem gravadas. É uma obra que pede escuta atenta, mas também pede entrega. Dá para sentir nas camadas, no arranjo, nas vozes, que existe ali uma convocação, um chamado, algo que não se compreende totalmente, mas que alinha. É uma canção que te coloca num certo lugar de silêncio interno, daqueles que reorganizam as coisas sem pedir permissão.

“Xangô Alapalá” é, para mim, uma música que continua mesmo depois do fim. Ela não se encerra na última palavra. Fica. E talvez esse seja o maior mérito da união entre Zeferina e Mateus Aleluia: transformar arte em memória viva, transformar memória em gesto, transformar gesto em justiça.

O clipe, dirigido por Daniel Fagundes, expande essa experiência e traduz visualmente tudo o que a música convoca. É como se a imagem confirmasse o que o som já sabia.

SINTA:

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De São Paulo, apaixonada por cultura, arte e comportamento humano. Movida a música.